O interesse da URSS por Portugal pelos “óculos” dos EUA

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A avaliação é da Embaixada dos Estados Unidos em Moscovo sobre o(s) interesse(s) dos soviéticos em Portugal e na revolução e na Espanha de Franco.

O telegrama, confidencial, é de 25 de outubro de 1975. Por essa altura, já tinha caído Vasco Gonçalves, o primeiro-ministro que Washington ajudou ativamente a apear do poder, e Pinheiro de Azevedo era o novo inquilino de São Bento. O outono tinha chegado, mas a temperatura política em Portugal continuava alta. A revolução estava na rua.

Jack Matlock, número dois da embaixada dos EUA em Moscovo e um especialista em assuntos soviéticos, começa por dizer que Portugal, na “perspetiva tradicional dos soviéticos”, é “pouco mais do que um apêndice” da Espanha na Península Ibérica… E diz que os soviéticos não acreditavam que os comunistas conquistassem o poder em Lisboa.

Matlock acreditava, isso sim, que o líder soviético, Leonid Brejnev, olharia uma vitória dos comunistas em Lisboa como uma fonte de problemas da União Soviética com o Ocidente em tempo de Guerra Fria e “deténte”. E que um Governo comunista em Portugal duraria pouco tempo. A começar pelo facto de o país não ser “uma ilha”, como Cuba, e estar rodeado “por três lados” pela Espanha, governada pelo ditador Francisco Franco. Além do mais, segundo o diplomata, os soviéticos duvidavam da capacidade do PCP de Álvaro Cunhal conquistar o poder em Lisboa.

E o Kremlin também não acreditava que o Ocidente, e em especial os EUA, deixasse que Portugal “se juntasse ao campo soviético”. “É inconcebível para a liderança soviética” que esse cenário se concretizasse, concluiu o diplomata.

Mais ainda. Em termos estratégicos, um Governo “vermelho” em Lisboa levaria Espanha – ainda governada por Franco – a “virar à direita”(!) e a afastar-se da Europa.

Do ponto de vista soviético, “seria muito pior ganhar [Portugal] e depois perder, ‘à la Chile´, do que ser derrotado”.

Na avaliação de Matlock, os soviéticos achavam que “Cunhal exagerou”: “Teve a vantagem de ter um partido disciplinado, um primeiro-ministro maleável, e uma situação política confusa, mas pressionou demais e perdeu uma parte essencial dos militares e dos socialistas.”

Por outras palavras, e com base numa análise de imprensa sobre a situação portuguesa, a embaixada dos EUA acreditava que “o conselho do Kremlin a Cunhal tenha sido” manter-se na retaguarda e cultivar as relações com os militares do MFA. Objetivo? “Que o erro de Allende não se repita em Lisboa”. Ou seja, evitar o esmagamento de um Governo comunista por um movimento militar de direita, como Pinochet fez com Allende.

Com os comunistas no Governo – mesmo num executivo “unitário” – os soviéticos podiam “por e dispor”, na leitura de Matlock.  “Podem recuperar da ‘lição do Chile’, continuar em Portugal a espiar um Governo da NATO com participação portuguesa: tudo sem prejudicar a ‘detente’ e, por isso, a ‘europeização’ de Espanha. Brejnev terá dito Costa Gomes: “não conheço esse cavalheiro”. Apesar da atitude hipócrita, acreditamos que os soviéticos estão confortáveis com a situação [em Portugal]: vão ajudando clandestinamente o PCP com dinheiro, enquanto alegam que estão “limpos” e têm uma política de não-ingerência”.

[Foto: 24 novembro, 1974. Presidente dos EUA, Gerald Ford, e o líder soviético, Leonid Brejnev, na cimeira de Vladisvostok, Rússia. (AP/Wide World Photo)]

Londres evitou envolver Moscovo na crise de março

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Mais um papel dos arquivos britânicos. São as conclusões de mais uma reunião do conselho de ministros que começou às 09:30 de 25 de março de 1975, no n.º 10 de Downing Street, em Londres. Por essa altura, andava Portugal às voltas com uma revolução, já passara o “11 de março”, as ruas estavam tomadas por militares barbudos e esquerdistas.

O chefe da diplomacia britânico, James Callaghan, alertava que a situação portuguesa era “confusa e potencialmente perigosa”. O MFA é “imprevisível” e os acontecimentos dos “últimos dias” – o golpe de 11 de março – significam “mais um passo no estabelecimento de um regime totalitário controlado pelos comunistas”, com o eventual apoio dos soviéticos.

A inquietação – ou será pânico? – parece ter tomado conta dos países aliados da NATO. Londres opusera-se a que os embaixadores da URSS nas capitais dos países da Aliança Atlântica fossem “chamados de imediato” para audiências, presumivelmente pelos responsáveis da diplomacia. Callaghan receava que esse ato fosse entendido como “uma ingerência” na formação do Governo em Lisboa e em que os aliados não queriam comunistas.

A decisão de Londres foi dar instruções ao embaixador em Lisboa para transmitir ao Presidente Costa Gomes a importância de o novo regime manter as eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril, dando garantias de serem disputadas numa “atmosfera de estabilidade e equilíbrio”.

(Foto Central Press/Getty Images)

O “senhor” Soares no Reino Unido…

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(Foto: Fundação Mário Soares)

De “senhor Soares” em 1974…

Tinha passado apenas uma semana desde a queda da ditadura de Marcelo Caetano, a 25 de abril de 1974. Harold Wilson era primeiro-ministro no Reino Unido. No número 10 de Downing Street, em Londres, é feita uma primeira análise do golpe (para já era um golpe). Há dois nomes que aparecem na ata da reunião desse dia: o “senhor Soares” e o “general Spínola”.

A ata da reunião do governo britânico é de 02 de maio de 1974 e a posição sobre Portugal é descrita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, James Callaghan, mais tarde um aliado de Soares nos meses loucos da revolução. Para já, Londres ia reconhecer o “novo regime”. António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional, era tido como alguém que conseguiu manter a situação estável em Lisboa.
No texto da ata (disponível nos National Archives do Reino Unido, mas não na sua página na Internet) são curiosas as informações relatadas: sobre a visita de Soares a Londres, como “emissário de Spínola”, e o desejo dos comunistas de participarem no Governo saído do 25 de abril.
Pode não parecer novidade, mas Mário Soares também tem uma confissão, no relato feito por Callaghan:  a ambição de ser primeiro-ministro.
Apesar dos “grandes problemas” que Portugal vai enfrentar na transição de um “Estado totalitário para uma democracia”, Callaghan dizia acreditar que estava criada “uma oportunidade” para os portugueses.
Problemático era o dossier da descolonização – primeiro tema de fricção entre os militares do MFA e Spínola. Pela ata percebe-se que “o novo regime” acolheria de bom grado conselhos sobre o tema vindos de Londres…
Curiosa é a forma como Soares, secretário-geral do PS, era tratado na ata: “Senhor Soares”. Assim mesmo, com “n” e “h”. Um ano depois, já seria diferente.

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(Foto da Conferência de Helsínquia, Jean Gaumy, 1975, Magnum)

… a “dr. Soares” em 1975

Passa mais de um ano sobre a primeira análise ao golpe em Lisboa. À mesma mesa de Downing Street, a 24 de julho de 1975, voltam a sentar-se Harold Wilson, James Callaghan. Portugal está na agenda. Em Londres e não só; também em Paris, Washington, Pequim, Moscovo. O cenário era muito diferente de maio de 1974. Há uma revolução vermelha nas ruas de Lisboa.
Os britânicos olhavam a situação “confusa” de Portugal, com Soares a querer derrubar o Governo de Vasco Gonçalves; havia o risco de um golpe de Estado da parte do PCP e da esquerda militar, concluíam eles.
A poucos dias da Cimeira de Helsínquia, Wilson planeava falar, juntamente com o presidente da França, Giscard d’Estaing, ao líder soviético, Leonid Brejnev, sobre Portugal e os riscos, para a política de “detente”, de um envolvimento da URSS nos acontecimentos em Portugal.
“Não havia dúvidas de que a União Soviética estava a fornecer fundos substanciais ao Partido Comunista Português, então o sr. Brejnev tem o poder, ainda que parcialmente, para controlar a situação, como prova de empenhamento na ‘detente ‘”, lê-se na ata da reunião de ministros britânicos*.
Nos arquivos norte-americanos há, também, documentos a atestar este plano de Wilson e Giscard. E até um telegrama do Departamento de Estado norte-americano a relatar que Brezhnev terá dito que ia analisar o pedido…
Harold Wilson era um dos líderes europeus que tinha planeado estar presente num encontro de solidariedade da Internacional Socialista com Portugal, em Estocolmo. Mário Soares era agora uma das figuras centrais da política portuguesa contra o avanço “vermelho” em Portugal. Em Estocolmo, lá estiveram Willy Brandt, Olof Palme, François Miterrand e Yitzak Rabin.
Na ata, Soares já não era o “senhor Soares”, mas sim “dr. Soares”…

Quando o embaixador da ditadura elogiava a moderação de Cunhal…

RegressodeAlvaroCunhal

Este é um excerto de um telegrama enviado pelo Departamento de Estado em que o embaixador João Hall Themido, diploma português em Washington que resistiu ao 25 de Abril e ficou em funções, apesar da queda da ditadura. Ele foi uma “peça”, pela continuidade, na tentativa de acalmar o aliado americano face às mudanças de regime em Portugal.

A 30 de Maio de 1974, Themido estivera em Lisboa e regressou a Washington com uma mensagem de amizade aos Estados Unidos, nessa altura ainda na fase de “wait and see”, mas já com os olhos postos em Álvaro Cunhal , líder do “único partido organizado”, como não se cansava de dizer Kissinger.

Conciliador, João Hall Themido dizer que, até ao momento, fizera declarações muito “responsáveis”. Nos meses, anos seguintes o embaixador teve posições bem mais alarmadas sobre “os comunistas” em Portugal…
(Ler o telegrama na íntegra)

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=107958&dt=2474&dl=1345

CONFIDENTIAL
PAGE 01 STATE 113385
63
ORIGIN EUR-25
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USIA-15 IO-14 AF-10 SAM-01 EB-11 /136 R
DRAFTED BY EUR/IB:WPKELLY:MS
APPROVED BY EUR – WELLS STABLER
——————— 091061
P 301929Z MAY 74
FM SECSTATE WASHDC
TO AMEMBASSY LISBON PRIORITY
C O N F I D E N T I A L STATE 113385
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, U-S.
SUBJECT: CONVERSATION WITH PORTUGUESE AMBASSADOR TO U.S.
1. AMBASSADOR THEMIDO (JUST RETURNED FROM CONSULTATION IN
LISBON) CALLED ON ACTING ASSISTANT SECRETARY STABLER LATE
AFTERNOON MAY 28 TO DELIVER LETTER FROM FOREIGN MINISTER
SOARES TO SECRETARY THANKING HIM FOR HIS MESSAGE AND TO
CONVEY–UNDER INSTRUCTIONS–SOARES’ STRONGLY EXPRESSED
DESIRE FOR STRENGTHENED PORTUGUESE RELATIONS WITH U.S.
COPY OF LETTER BEING POUCHED FOR POST INFO. MAJOR
ELEMENTS OF CONVERSATION ARE SUMMARIZED BELOW.
(…)
5. STABLER ASKED HOW THE PROVISIONAL GOVERNMENT OPERATES
VIS-A-VIS THE JUNTA. THEMIDO REPLIED THAT THE PG
IMPLEMENTS THE PROGRAM DEFINED BY THE JUNTA AND THE ARMED
FORCES MOVEMENT BUT THAT THE JUNTA CONCERNS ITSELF
PRINCIPALLY WITH BROAD GUIDELINES FOR SOLVING THE MAJOR
ECONOMIC AND POLITICAL PROBLEMS OF THE COUNTRY, E.G.
LABOR DIFFICULTIES AND THE OVERSEAS TERRITORIES. THEMIDO
EXPLAINED WHY COMMUNISTS ARE INCLUDED IN THE PROVISIONAL
GOVERNMENT, VOLUNTEERED HIS PERSONAL OPINION THAT CUNHAL
HAS BEEN “RESPONSIBLE” THUS FAR IN THE STATEMENTS HE
HAS MADE, AND SAID THAT ELECTIONS WILL CLEARLY SHOW WHERE
PORTUGAL IS GOING POLITICALLY (WHICH THEMIDO SEEMED TO
THINK WAS TOWARD THE CENTER).

Duas semanas antes, a embaixada norte-americana em Lisboa apresentava, em cinco linhas, Cunhal, então nomeado ministro sem pasta no Governo Provisório, como um comunista, “duro” e “disciplinado”, atualmente líder do PCP, e que nos últimos 14 anos viveu em Praga.
(Ler o telegrama na íntegra)

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=106717&dt=2474&dl=1345

CONFIDENTIAL

PAGE 01 LISBON 01949 01 OF 02 161602Z
43
ACTION EUR-25
INFO OCT-01 AF-10 ARA-16 NEA-14 ISO-00 EURE-00 SSO-00
NSCE-00 USIE-00 INRE-00 CIAE-00 PM-07 H-03 INR-10
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SAM-01 OMB-01 NIC-01 SAJ-01 SSC-01 DRC-01 /131 W
——————— 044774
O R 161500Z MAY 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 9610
INFO Z/AMEMBASSY BRASILIA 152
AMEMBASSY CONAKRY
AMEMBASSY DAKAR
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY LUSAKA
AMEMBASSY MADRID
AMCONSUL OPORTO UNN
AMCONSUL PONTA DELGADA UNN
AMEMBASSY RABAT
AMEMBASSY PRETORIA
USCINCEUR
CINCLANT
DIA
COMUSFORAZ
USMISSION NATO
C O N F I D E N T I A L SECTION 1 OF 2 LISBON 1949
E.O. 11652: GDS
TAGS: PINT, PGOV, PO
SUBJ: PROVISIONAL GOVERNMENT NAMED

(…)
3. MINISTER WITHOUT PORTFOLIO ALVARO CUNHAL, 50, IS A TOUGH,
DISCIPLINED LIFE-LONG COMMUNIST PRESENTLY SERVING
AS PCP SECRETARY GENERAL. FOR PAST FOURTEEN YEARS
HE HAS LIVED IN PRAGUE. HE HAS SPENT TWELVE YEARS IN
PORTUGUESE PRISONS.

E os americanos “vigiavam” Cunhal

alvaro1

São dezenas de telegramas: sempre que Álvaro Cunhal dá uma entrevista, seja em França, Brasil, Checoslováquia, havia uma embaixada ou consulado norte-americano a fazer um telegrama.

Um mês antes do 11 de Março, tentativa “putchista” de Spínola e seus apoiantes, o líder histórico do PCP alertava para os riscos de um golpe num país em que “rumores de golpe” andavam de boca em boca, de manchete em manchete.
Leia-se este telegrama, do embaixador norte-americano em Lisboa, Frank Carlucci, sobre uma entrevista do líder comunista à revista brasileiro “Veja”: Cunhal, segundo Carlucci, falava em risco de golpe da direita, e de guerra civil, para tentar “arrefecer” os rumores de que o PCP estaria a preparar a tomada do poder.

CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 00880 141927Z
20
ACTION EUR-12
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INR-07 L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
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——————— 039717
R 141635Z FEB 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 1755
INFO AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY BRASILIA
AMEMBASSY LONDON
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY PARIS
AMCONSUL RIO DE JANEIRO
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
C O N F I D E N T I A L LISBON 880
EO 11652: GDS
TAGS: PINT, PO
SUBJ: ALVARO CUNHAL ON “LOCKED GATE” AND POSSIBILITY OF CIVIL WAR
1. SECRETARY GENERAL OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY (PCP)
ALVARO CUNHAL GRANTED INTERVIEW TO BRAZILIAN MAGAZINE “VEJA”
IN WHICH HE STATED THAT THERE WAS NOTHING EXTRAORDINARY ABOUT
NATO “LOCKED GATE” EXERCISE SINCE PORTUGAL IS MEMBR OF NATO.
CUNHAL WENT ON TO STATE THAT TIMING OF EXERCISE POORLY CHOSEN,
BUT IT NOT NECESSARY TO “DRAMATIZE” THAT FACT.
2. REGARDING POSSIBILITY OF CIVIL WAR IN PORTUGAL, CUNHAL
STATED THAT CIVIL WAR NOT LIKELY, BUT THAT IT COULD ARISE IF
CONFIDENTIAL
CONFIDENTIAL
PAGE 02 LISBON 00880 141927Z
“COUNTE-REVOLUTIONARY FORCES” MADE ARMED COUP ATTEMPT.
3. COMMENT: IT APPARENT THAT CUNHAL IS MAKING ATTEMPT IN
“VEJA” INTERVIEW TO COOL ALARMIST RUMORS CONNECTED WITH RECENT
ISSUES SUCH AS “LOCKED GATE” AND DRAFT LABOR LAW, ESPECIALLY
REGARDING PCP ATTEMPTS TO TAKE OVER GOVT.
STATEMENTS MADE IN “VEJA” SIMILAR TO PREVIOUS STATEMENTS MADE
BY CUNHAL ON THESE TOPICS.
CARLUCCI
CONFIDENTIAL
NNNN

(Ler o telegrama na íntegra)

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=100884&dt=2476&dl=1345

Kissinger achava que comunistas iam matar Mário Soares em 1975

Ford_Library

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano, previu e errou que “os comunistas” iam matar, em 1975, Mário Soares, líder histórico do PS e ministro dos Negócios Estrangeiros.

“Os comunistas vão arrastar Soares para a esquerda até ele perder apoio e depois vão matá-lo. As forças armadas vão fazer um golpe de estado sob liderança dos comunistas”, afirmou Kissinger numa reunião, a 04 de fevereiro de 1975, do Comité dos 40, organismo para supervisionar operações clandestinas e que incluía os serviços secretos, a CIA.

Henry Kissinger era um crítico de Mário Soares, considerando-o fraco e, em outubro de 1974, chegou a dizer-lhe que seria o “Kerensky português”, o dirigente socialista russo derrotado por Lenine na revolução russa de 1917.

Anos mais tarde, já depois do fim do período revolucionário, em finais de 1975, também numa reunião em Washington, admitiu o erro quanto a Mário Soares, que, na democracia portuguesa, foi primeiro-ministro de vários governos e Presidente da República (1986-1996).

Esta revelação é feita, 40 anos após o 25 de Abril de 1974, em documentos do Departamento de Estado até agora considerados “secretos” e publicados no volume do departamento histórico do Departamento de Estado sobre a política externa norte-americana, referente aos anos de 1969-1977 (Foreign Relations of the United States – Volume E-15, part II).

(Foto da Ford Library, com Costa Gomes e Geral Ford em primeiro plano, seguidos por Kissinger e Soares, em outubro de 1974)

(Texto publicado na Lusa, a 23 de agosto de 2014)

CIA abortou plano para apoiar Spínola em 1975

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Os Estados Unidos tiveram um plano para apoiar António de Spínola, do movimento anticomunista MDLP, durante o período revolucionário de 1975, mas foi “chumbado” pela CIA, que foi mantendo “algum tipo de contacto” com o general.

A revelação é feita em documentos do Departamento de Estado até agora considerados “secretos” e publicados no volume do departamento histórico do Departamento de Estado sobre a política externa norte-americana, referente aos anos de 1969-1977 (Foreign Relations of the United States – Volume E-15, part II).
O embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, era contra qualquer apoio norte-americano ao general do monóculo, que fugiu de Portugal após a tentativa falhada de golpe de Estado de 11 de março de 1975, e é isso mesmo que diz a Henry Kissinger numa reunião em Washington em 12 de agosto de 1975, no Departamento de Estado.
A secreta norte-americana não estaria, porém, inocente nos contactos com Spínola, dado que Carlucci recorda, nesse encontro, que viu um relatório da CIA que “indicava algum tipo de contacto”, o que o lhe causa “alguma preocupação”.
A avaliar pelos documentos agora divulgados pelo Departamento de Estado, passados os quase 40 anos de classificação, a proposta de apoio a Spínola circulou entre vários membros do Comité dos 40, um organismo chefiado por Kissinger para supervisionar operações clandestinas e que incluía os serviços secretos, a CIA, mas não avançou, de acordo com um documento secreto, datado de 30 de julho de 1975.
O documento teve a oposição do Departamento de Estado e da CIA, obtendo apenas o voto favorável do chefe de estado conjunto das forças armadas norte-americanas, general George Brown. Para o Departamento de Estado, Spínola “estava descreditado e [com ele] não há perspetivas de sucesso” para os objetivos dos EUA.
Durante o seu exílio após a tentativa falhada de golpe do 11 de março de 1975, António de Spínola fundou o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), tentou apoios em França e no Brasil para um movimento militar e popular para derrubar o Governo liderado por Vasco Gonçalves e apoiado pelo PCP.
(Texto publicado na Lusa, a 23 de agosto de 2014)

O cubano, militar e galã, que Portugal não trocou por um espião da CIA

A “guerra fria” entre Estados Unidos e Cuba passou por Portugal. Primeiro pela Guiné-Bissau, em 1969, com a prisão de um militar cubano. Depois por Lisboa, em 1974, onde a revolução estava na rua e até o The New York Times noticiava as manif’s a pedir “Liberdade para o capitão Peralta.” Apaixonou-se por uma enfermeira portuguesa, que o acompanhou no regresso a Havana. Fidel Castro, ele próprio, elogiou, num congresso do PC cubano, em 1975, as “virtudes de comunista” do capitão Pedro Rodriguez Peralta, militar, jovem e galã

Featured image

(Fotografia do Expresso, proibida pela Censura)

O militar, jovem, era cubano. Na madrugada do 25 de Abril, estava preso em Lisboa pelo regime fascista há cinco anos. Chamava-se Pedro Rodríguez Peralta.

Em novembro de 1969, os militares portugueses tinham organizado a “Operação Jove”. O objetivo era capturar Nino Vieira, mítico comandante do PAIGC na “frente sul”. Nino não vinha na coluna rebelde, mas os soldados capturaram um capitão das forças armadas cubanas que estava a dar formação aos homens do PAIGC. Fizeram-se tiros, alguns dos rebeldes foram feridos, Pedro Peralta atingido. Primeiro, foi transferido para Bissau e depois para a capital, onde esteve na prisão de Caxias e, já em 1970, no Hospital Militar, na Estrela, em Lisboa. Foi julgado e condenado.

Featured image

(Revista FLAMA, n.º 1.409, de 07 de março de 1975)

Nesta história de espiões nem faltou a tentativa de trocar Peralta por um norte-americano, espião, Lawrence Lunt. Mas sem sucesso. O Vaticano foi o mediador.

A pressão dos Estados Unidos para a troca de prisioneiros é enorme. Henry Kissinger assina vários telegramas para a embaixada em Lisboa, dá ordens ao embaixador Scott a pedir audiências a António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional após o 25 de Abril, para tratar do assunto.

Aconteceu logo no dia seguinte ao golpe, a 26 de abril de 1974, em que o Departamento de Estado questionava se, após a mudança de governo, se mantinha válida a hipótese de troca de Peralta por Lunt.

A seguir, pode ver-se o exemplo de um desses telegramas:

CONFIDENTIAL

PAGE 01 STATE 085867

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ORIGIN SS-30

INFO OCT-01 ISO-00 SSO-00 CCO-00 /031 R

DRAFTED BY EUR/IB:EMRABENOLD:MS

APPROVED BY D – MR. RUSH

EUR – MR. STABLER

ARA – MR. LITTLE

S/S – MR. LUERS

——————— 079323

Z 262016Z APR 74 ZFF4

FM SECSTATE WASHDC

TO AMEMBASSY LISBON FLASH

C O N F I D E N T I A L STATE 085867

EXDIS

E.O. 11652: GDS

TAGS: PINS, PO

SUBJECT: CAPTAIN PERALTA

REF: LISBON 1620

RAISE SUBJECT INFORMALLY WITH FREITAS CRUZ IF HE IS STILL

AROUND AND ASK HIM IF HE CAN CONTACT JUNTA WITH VIEW TO

EXCHANGING PERALTA FOR LUNT RELEASE FROM CUBAN JAIL. KISSINGER

CONFIDENTIAL

NNN

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=66400&dt=2474&dl=1345

Três dias depois, novo telegrama. Agora, Scott, o embaixador, tinha contactado o embaixador Freitas da Cruz, no Palácio das Necessidades. O embaixador português pedia paciência. A JSN estava a ponderar o caso.

CONFIDENTIAL

PAGE 01 LISBON 01647 291042Z

53

ACTION SS-30

INFO OCT-01 ISO-00 /031 W

——————— 096931

R 291023Z APR 74

FM AMEMBASSY LISBON

TO SECSTATE WASHDC 9483

C O N F I D E N T I A L LISBON 1647

EXDIS

E.O. 11652: GDS

TAGS: PINS PO

SUBJ: CAPTAIN PERALTA

REF: LISBON 1639; STATE 085867

DCM TALKED WITH CALVET DE MAGALHAES AGAIN ON EVENING

APRIL 28 ON SUBJECT. CALVET SAID THAT HE COULD CONFIRM

THAT PERALTA IS IN MILITARY CUSTODY AND THE

JUNTA IS STUDYING THE MATTER AND ASKS FOR OUR

PATIENCE.

SCOTT

CONFIDENTIAL

NNN

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=68435&dt=2474&dl=1345

A verdade é que, dentro do Governo, havia várias sensibilidades e as prioridades eram outras. Galvão de Melo, membro da JSN, admitia o cenário, segundo um telegrama norte-americano, da troca de prisioneiros exigida por Washington. O embaixador Scott pedia paciência. As semanas sucediam-se. E nada.

As instruções sucedem-se a partir de Washington para um país que vivia ainda a festa do fim da ditadura. A 01 de maio, quando milhões de pessoas saíram à rua para celebrar o Dia do Trabalhador em liberdade, chegava mais um telegrama. Desta vez, seguia, para o pessoal da embaixada dos EUA em Lisboa, o texto que havia sido proposto por Cuba e que a Santa Sé, em 1971, tentou negociar com as partes envolvidas.

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PAGE 01 STATE 089868

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ORIGIN SS-30

INFO OCT-01 ISO-00 /031 R

DRAFTED BY ARA/CCA:HVSIMON:MB

APPROVED BY ARA:HWSHLAUDEMAN

ARA/CCA:ESLITTLE

EUR/WE:CKJOHNSON(PHONE)

EUR/IB:EMRABENOLD (DRAFT)

S/S:WHLUERS

——————— 001928

R 012356Z MAY 74

FM SECSTATE WASHDC

TO AMEMBASSY LISBON

C O N F I D E N T I A L STATE 089868

EXDIS

E.O. 11652: GDS

TAGS: PINS, PO, CU

SUBJECT: CUBAN EXCHANGE OFFER: LUNT-PERALTA

REF: STATE 88767

THE FOLLOWING IS TRANSMITTED AS BACKGROUND FOR YOUR USE

SHOULD THE SITUATION REGARDING THE RELEASE OF PERALTA

DEVELOP TO THE POINT WHERE THERE IS SOME QUESTION AS TO

THE NATURE OF THE CUBAN OFFER. OPERATIVE PORTIONS FROM

THE CUBAN AIDE-MEMOIRE OF MARCH 30, 1971 GIVEN TO THE

VATICAN’S REPRESENTATIVE IN HAVANA: QUOTE (THE AUTHORITIES)

WOULD BE WILLING TO RELEASE THE PRISONER (LUNT) AND

DELIVER HIM TO THE NUNCIATURE OR TO WHOMEVER IT MIGHT

INDICATE, PROVIDED FREEDOM AND DELIVERY TO CUBAN AUTHORITIES,

AT WHATEVER PLACE THEY MIGHT INDICATE, WERE GRANTED

AT THE SAME TIME TO PEDRO RODRIGUEZ PERALTA…END QUOTE.

RUSH

CONFIDENTIAL

NNN

http://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=98943&dt=2474&dl=1345

Se as autoridades cubanas aceitassem a libertação de Lunt, ao mesmo tempo Peralta seria também libertado. Faltava convencer as novas autoridades de Portugal, saídas do golpe do Movimento das Forças Armadas (MFA) mais preocupadas com outras questões, como a formação do Governo, a descolonização ou o destino a dar aos antigos governantes e aos dirigentes da PIDE.

As manifestações também se sucederam alguns dias frente ao Hospital da Estrela. “O povo português libertará o capitão Peralta”, escrevia o MRPP num comunicado em que pedia “Todos à Estrela”, a 26 de maio de 1974. Todos não, mas foram muitos. No estrangeiro, houve noticias destas manifestações, no ABC e no The New York Times.

A tensão sobe. As forças armadas são chamadas a intervir e dispersam os manifestantes.

Quem comandava as tropas era Jaime Neves, capitão de Abril e mais tarde polémico comandante dos “comandos”, que conta o que aconteceu numa entrevista ao Sol, a 15 de maio de 2009.

Costa Gomes (da JSN) disse-me para eu ir buscar um cubano, o célebre capitão Peralta, que estava no hospital da Estrela e que os gajos da extrema-esquerda queriam tomar o quartel para o tirarem de lá. Perguntei-lhe se podia usar de todos os meios. Só ao fim de meia hora é que escreveu a meu pedido uma ordem, mas frisando que só em caso extremo podia usar as armas. Lá fui e, pela primeira vez na minha vida, assustei-me e vi-me aflito. (…) Quando eu dou a volta no Largo da Estrela vejo um mar de gente, e os malandros de repente atiram-se todos ao chão e não me deixam andar Eu vou devagarinho e vi os gajos a minha frente a fazerem amor…Tive que andar a levantá-los um a um e lá consegui encostar os carros todos ao fim de duas horas.

O que aconteceu para a libertação, a 16 de setembro de 1974? Há várias versões. Em 1996, num debate sobre a descolonização de Angola, surge o tema Peralta e Spínola. O debate era entre o embaixador Nunes Barata, adjunto de Spínola em Belém, em 1974, e António Ramos, ajudante de campo de Spínola na Guiné. Hoje, a transcrição dessa discussão está no Arquivo de História Social do Instituto de Ciências Sociais.

O diálogo é elucidativo.

Nunes Barata: Perguntei-lhe [a Spínola] o que se tinha passado em Conacri. Quer dizer, a ideia com que fiquei de Conacri é que era uma operação destinada a derrubar o Sekou Touré. Era destinada a pôr no poder em Conacri um governo que fosse menos anti-português. A ideia era essa: auxiliar a oposição a Sekou Touré e tomar conta do poder. E libertar os portugueses que lá estavam.

Ainda a propósito da descolonização da Guiné há o caso Peralta de que se falou muito depois do 25 de Abril – a libertação imediata do capitão cubano Peralta, que o Spínola não queria fazer sem ter a garantia de que também seriam libertados os militares portugueses que estavam presos pelo PAIGC. E foi uma das razões [que levou a que] um dia [tivesse uma] conversa com o Fabião, porque o Fabião mandou libertar uma série de prisioneiros nossos que eram membros do PAIGC sem ter obtido a garantia de que o PAIGC atuaria da mesma maneira, que libertaria os portugueses que lá estavam. Portugueses e Guinéus que trabalhavam nas Forças Armadas portuguesas. O caso Peralta foi esse: [o Spínola] opôs-se à libertação sem haver essa garantia. Disse: “O Peralta é um prisioneiro como outro qualquer, é um capitão cubano que estava com o PAIGC, nós prendemo-lo, se nós o libertamos eles também têm que libertar oficiais e soldados nossos que estão presos.” Mas também aí acabou por ceder às pressões e o Peralta foi libertado […].

António Ramos: Disseram-lhe que estavam a entregar presos portugueses em Aldeia Formosa, ele pega no telefone e manda libertar o Peralta e, passado uma hora, desmentem-lhe a libertação dos presos em Aldeia Formosa. Não estavam a entregar coisa nenhuma… Isso aí é uma daquelas golpadas em que nós portugueses temos culpa.

http://www.ahs-descolonizacao.ics.ul.pt/angola.htm

Pedro Rodriguez Peralta, que se enamorou por uma enfermeira portuguesa no Hospital da Estrela, partiu finalmente para Cuba a 16 de setembro.

O jornal ABC noticiou a passagem do cubano por Madrid. O capitão Rodriguez Peralta tornou-se conhecido em Cuba. Fidel Castro elogiou-lhe o heroísmo. Da enfermeira portuguesa, de pouco (ou nada) reza a história.

Kissinger queria golpe de estado em Portugal, em 1975

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O ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger não era assim “tão contra” um golpe de estado de direita em Portugal durante o processo revolucionário de 1975 e admitiu fornecer armas ao “grupo dos Nove”.
Estas são revelações feitas, 40 anos após o 25 de Abril de 1974, em documentos do Departamento de Estado até agora considerados “secretos” e publicados no volume do departamento histórico do Departamento de Estado sobre a política externa norte-americana, referente aos anos de 1969-1977 (Foreign Relations of the United States – Volume E-15, part II).
A reunião decorreu a 12 de agosto de 1975, entre Kissinger, o embaixador dos EUA em Lisboa, Frank Carlucci, e vários membros do Departamento de Estado, em Washington, incluindo William Hyland, diretor do Departamento de Informações e Pesquisa do Departamento de Estado.
Já passara mais de um ano sobre o golpe que derrubou a ditadura, a 25 de Abril, e o Governo de Lisboa era liderado por Vasco Gonçalves, o “inimigo número um” dos EUA. Carlucci e Hyland concluíram que o maior risco para os objetivos norte-americanos eram António de Spínola, o primeiro presidente pós-25 de Abril e que liderou o 11 de março, e a extrema-direita.
Nessa altura, Henry Kissinger, chefe da diplomacia dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford, disse algo que, admitiu, poderia chocar os seus “colegas”.
“Não sou assim tão contra um golpe desse tipo [de direita], por muito chocante que seja para os meus colegas…”, lê-se na ata da reunião de agosto de 1975, em que se discutiram as hipóteses de êxito de um golpe por parte da direita em Portugal.
Carlucci opôs-se, tal como já se opusera à tese da vacina: Kissinger aceitaria “perder” Portugal para os comunistas, apoiados pela União Soviética, e tal funcionaria como “vacina” para Espanha ou Itália. O diplomata defendeu, isso sim, o apoio dos EUA aos “moderados”, incluindo o PS de Mário Soares.
“Não, também não sou contra um golpe, se resultasse. Mas se Spínola o tentar, não vai resultar. [Melo] Antunes [do Grupo dos Nove] pode ser um líder no momento seguinte, Spínola não. Ele é, na minha opinião, um homem muito perigoso”, afirmou Carlucci.
Spínola, durante o seu exílio após a tentativa falhada de golpe do 11 de março de 1975, fundou o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), tentou apoios em França e no Brasil para um movimento militar e popular que derrubasse o Governo liderado por Vasco Gonçalves e apoiado pelo PCP.
Kissinger disse que, naquela altura, os EUA não tinham qualquer relação com Spínola. Carlucci duvidou, dado que lera um relatório da CIA sobre a América Latina e que indicava “algum tipo de contacto” com o general.
É também na reunião de 12 de agosto no Departamento de Estado, em Washington, que Kissinger e Carlucci falam abertamente de uma guerra civil em Portugal e da possibilidade de fornecer armas a personalidades relacionadas ou com Mário Soares ou do Grupo dos Nove.
Neste ambiente, político e militar, Carlucci recebeu luz verde para Washington examinar o pedido” de fornecimento de armas desde que fosse legítimo.
“E se, no seu julgamento, os pedidos forem feitos por elementos responsáveis”, explicou Henry Kissinger. E Carlucci revelou ter sido contacto por pessoas que não eram nem ligadas a Soares nem ao PS nem aos militares “moderados”.
Não há, nestes documentos desclassificados, elementos sobre se foram entregues armas pelos Estados Unidos e a quem.
(Arquivo Gerald Ford Library, 18 de outubro de 1974, fotografias do encontro entre os presidentes português, Costa Gomes, e dos Estados Unidos,, Gerald Ford, vendo-se também Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros, e Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA)
(Texto publicado na Lusa, a 23 de agosto de 2014)